Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
Para o Portal Vida Econômica
O Banco Central divulgou nesta quinta-feira, 24 de setembro, o seu Relatório de Política Monetária (RPM) do terceiro trimestre de 2026, trazendo um diagnóstico que merece atenção: a economia brasileira está desacelerando, mas a inflação ainda permanece acima da meta e as expectativas continuam desancoradas.
O relatório reduz de 2,0% para 1,8% a projeção de crescimento do PIB em 2026 e estima expansão de apenas 1,4% em 2027. Ao mesmo tempo, o Banco Central manteve em 5,2% a projeção para o IPCA de 2026, muito acima do centro da meta de inflação, de 3,0%.
O cenário apresentado pelo BC evidencia um dos principais desafios da economia brasileira: a necessidade de combater a inflação sem provocar uma desaceleração excessiva da atividade econômica.
Inflação continua sendo o principal problema
Embora o IPCA acumulado em 12 meses tenha recuado de 4,72% em maio para 4,22% em agosto, o Banco Central avalia que a inflação ainda apresenta componentes de resistência, especialmente nos preços de serviços, em um ambiente de mercado de trabalho ainda aquecido.
A projeção de 5,2% para o IPCA no final de 2026 significa que a inflação deverá permanecer acima do teto da meta, estabelecido em 4,5%.
Mais preocupante ainda é a avaliação de risco apresentada pelo Banco Central: a probabilidade estimada de a inflação ultrapassar o teto da meta em 2026 subiu de 79% para 90%.
As expectativas também permanecem acima da meta. Segundo os dados apresentados no relatório, as projeções do mercado apontam inflação de aproximadamente 4,3% para 2027 e 3,8% para 2028, enquanto o objetivo central é 3%.
Esse quadro explica por que o Banco Central continua adotando uma postura cautelosa.
Selic começa a cair, mas juros continuam muito elevados
Na semana passada, o Copom reduziu a Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano.
Apesar da redução, a mensagem transmitida pelo Banco Central é clara: os juros ainda permanecerão em território restritivo por um período suficientemente longo para contribuir para a convergência da inflação à meta.
O movimento de redução da Selic, portanto, não deve ser interpretado como o início de uma queda rápida e acentuada dos juros.
O próprio Banco Central vem classificando o processo como um “ciclo de calibração”, indicando que a política monetária continuará restritiva.
Para o consumidor e para as empresas, isso significa que a redução da Selic tende a chegar gradualmente às taxas de empréstimos e financiamentos. O custo do crédito não acompanha automaticamente, nem na mesma proporção, cada redução da taxa básica.
Crédito continua caro e inadimplência preocupa
Um dos pontos mais importantes do atual cenário econômico é justamente a transmissão dos juros elevados para o mercado de crédito.
O Banco Central aponta que a desaceleração do crédito faz parte do mecanismo de transmissão da política monetária. Ao mesmo tempo, a inadimplência alcançou 4,9% em julho, o maior nível da série histórica mencionada no relatório.
Esse cenário exige atenção.
Para as famílias, juros elevados significam maior custo para financiar imóveis, veículos, bens de consumo e, principalmente, para utilizar modalidades como cartão de crédito e cheque especial.
No cartão de crédito, o problema é particularmente grave. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou hoje que existe preocupação com o chamado crédito predatório e destacou o elevado custo enfrentado por parte dos consumidores endividados.
Para as empresas, o ambiente de juros elevados aumenta o custo do capital de giro e pode dificultar investimentos, expansão da capacidade produtiva e contratação de trabalhadores.
O crescimento econômico perde força
O corte da projeção do PIB de 2,0% para 1,8% em 2026 é outro sinal importante do relatório.
A economia cresceu 0,5% no segundo trimestre, mas o Banco Central identificou perda de dinamismo principalmente nos segmentos mais sensíveis às condições de crédito e ao consumo das famílias.
A projeção de apenas 1,4% de crescimento para 2027 reforça a perspectiva de uma economia crescendo em ritmo moderado.
Esse quadro demonstra o efeito defasado da política monetária: juros elevados durante um período prolongado tendem a reduzir o consumo financiado, os investimentos e a demanda agregada.
O desafio, portanto, é encontrar o ponto de equilíbrio entre combater a inflação e evitar que o aperto monetário provoque uma desaceleração maior do que a necessária.
Principais números do Relatório de Política Monetária
| Indicador | Projeção / situação atual |
| Selic atual | 13,75% a.a. |
| IPCA projetado para 2026 | 5,2% |
| Centro da meta de inflação | 3,0% |
| Teto da meta | 4,5% |
| Probabilidade de inflação superar o teto em 2026 | 90% |
| PIB 2026 | 1,8% |
| PIB 2027 | 1,4% |
| IPCA acumulado em 12 meses em agosto | 4,22% |
| Inadimplência do crédito em julho | 4,9% |
| Expectativa de IPCA para 2027 | 4,3% |
| Expectativa de IPCA para 2028 | 3,8% |
Fonte: Banco Central do Brasil e dados apresentados no RPM de setembro de 2026.
O impacto sobre os investimentos
Para os investidores, o ambiente atual continua favorecendo aplicações de renda fixa pós-fixadas, especialmente aquelas que acompanham a Selic ou o CDI.
Com a Selic ainda em 13,75% ao ano, os investimentos conservadores continuam oferecendo remunerações nominais elevadas. Entretanto, à medida que o processo de redução da taxa básica avance, a rentabilidade dessas aplicações tende a diminuir.
Isso reforça a importância de avaliar não apenas a rentabilidade nominal, mas também:
- tributação;
- liquidez;
- risco de crédito;
- prazo da aplicação;
- proteção do FGC, quando aplicável;
- e rentabilidade real, descontada a inflação.
Para investimentos de prazo mais longo, a eventual continuidade da queda dos juros também pode alterar a atratividade relativa de títulos prefixados e indexados à inflação.
Famílias precisam redobrar os cuidados com o orçamento
O atual cenário recomenda cautela por parte das famílias.
Com juros ainda elevados e inflação acima da meta, o orçamento doméstico continua pressionado. A utilização de crédito para complementar renda ou financiar despesas recorrentes pode transformar um problema temporário de caixa em uma dívida de longo prazo.
Nesse ambiente, algumas medidas são fundamentais:
- evitar o pagamento mínimo da fatura do cartão;
- trocar dívidas caras por linhas de menor custo sempre que possível;
- evitar novos financiamentos sem avaliar o comprometimento da renda;
- constituir ou preservar uma reserva financeira;
- comparar as taxas efetivas antes de contratar crédito;
- priorizar a redução das dívidas com juros mais elevados.
Empresas também enfrentam um ambiente desafiador
Para as empresas, especialmente pequenas e médias, o cenário merece atenção redobrada.
O custo elevado do capital de giro pode reduzir margens e comprometer o fluxo de caixa. Empresas muito alavancadas podem enfrentar dificuldades mesmo quando apresentam crescimento das vendas.
Nesse contexto, torna-se fundamental administrar cuidadosamente:
capital de giro → estoque → prazo de recebimento → prazo de pagamento → custo financeiro.
A redução da Selic é positiva para as empresas, mas seus efeitos sobre as taxas efetivamente cobradas nos empréstimos dependerão também do risco de crédito, dos spreads bancários, da inadimplência e das condições de liquidez do sistema financeiro.
O grande desafio: combater a inflação sem frear excessivamente a economia
O Relatório de Política Monetária deixa bastante claro que o Banco Central está diante de um dilema relevante.
De um lado, a inflação projetada continua acima da meta, as expectativas permanecem desancoradas e a inflação de serviços ainda apresenta resistência.
De outro, a atividade econômica está perdendo velocidade, o PIB foi revisado para baixo e o crédito e o consumo começam a sentir mais intensamente os efeitos acumulados da política monetária restritiva.
O próprio BC projeta uma expansão econômica de apenas 1,4% em 2027, enquanto mantém uma postura monetária restritiva.
Isso significa que a redução dos juros deverá continuar sendo um processo cuidadoso e condicionado à evolução da inflação e das expectativas.
Conclusão
O Relatório de Política Monetária de setembro apresenta um retrato de uma economia brasileira em processo de desaceleração, mas que ainda não conseguiu eliminar as pressões inflacionárias.
A redução da Selic para 13,75% representa uma mudança importante na direção da política monetária, mas o Banco Central deixa claro que não pretende acelerar o processo de redução dos juros enquanto não houver maior segurança quanto à convergência da inflação para a meta.
Para as famílias, o momento exige disciplina financeira e cuidado com o crédito.
Para as empresas, a prioridade deve continuar sendo a preservação do caixa, o controle do endividamento e a busca por redução do custo financeiro.
Para os investidores, o cenário ainda oferece oportunidades relevantes na renda fixa, mas exige atenção à trajetória futura da Selic e à inflação.
E, para a economia como um todo, permanece o desafio de conseguir combinar inflação sob controle, juros menores, recuperação do crédito, aumento dos investimentos e crescimento econômico sustentável.
O relatório do Banco Central mostra que esse equilíbrio ainda está longe de ser alcançado e que os próximos meses serão decisivos para determinar a velocidade da queda dos juros e a capacidade de recuperação da economia brasileira.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
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