Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
Para o Portal Vida Econômica
As chamadas bets chegaram ao Brasil com a promessa de entretenimento, diversão e, para muitos apostadores, a possibilidade de ganhar dinheiro com o conhecimento sobre esportes. O problema é que a dimensão que esse mercado alcançou exige que a sociedade deixe de tratá-lo apenas como uma nova modalidade de entretenimento e passe a enxergá-lo como uma questão econômica, social, familiar e de saúde pública.
Os números mais recentes ajudam a dimensionar o fenômeno. Dados preliminares do Ministério da Fazenda indicam que os brasileiros movimentaram R$ 220,6 bilhões em apostas legalizadas em 2025, com aproximadamente 25 milhões de pessoas tendo apostado ao longo do ano. Desse total, cerca de R$ 36,9 bilhões representaram perdas dos apostadores, que se transformaram em receita das plataformas.
É uma transferência expressiva de renda das famílias para um setor cuja atividade, por sua própria natureza, depende de que o conjunto dos apostadores perca dinheiro.
O dinheiro que deixa de circular na economia real
Este talvez seja um dos aspectos econômicos mais preocupantes das bets.
Quando uma família utiliza parte de sua renda para comprar alimentos, roupas, medicamentos, pagar uma escola, fazer uma viagem ou adquirir um bem, esse dinheiro movimenta uma extensa cadeia produtiva. Gera receita para empresas, empregos, impostos e renda para outros trabalhadores.
Nas apostas, entretanto, existe uma diferença fundamental.
O dinheiro colocado em uma aposta não representa, necessariamente, a aquisição de um produto ou serviço com valor econômico correspondente. O apostador está transferindo recursos em busca de um resultado incerto. Quando perde, sua renda simplesmente desaparece do orçamento familiar.
Em 2025, as perdas estimadas dos apostadores nas plataformas legalizadas chegaram a aproximadamente R$ 36,9 bilhões.
Não se trata apenas de uma questão estatística. São bilhões de reais que poderiam estar financiando consumo, poupança, investimentos, pagamento de dívidas ou aquisição de bens e serviços.
É preciso, portanto, discutir o chamado custo de oportunidade das bets.
Cada R$ 100 que uma família perde em apostas são R$ 100 que não serão utilizados para outra finalidade. E, para famílias de baixa renda, esse custo é ainda maior, porque uma pequena parcela da renda comprometida pode significar a falta de dinheiro para despesas essenciais.
A aposta não pode ser confundida com investimento
Outro problema é a percepção, estimulada por parte da publicidade e das redes sociais, de que apostar seria uma forma de obter renda.
Não é.
Investimento pressupõe a aplicação de recursos em um ativo ou atividade econômica que pode gerar retorno ao longo do tempo. Uma aposta, por sua vez, envolve um resultado incerto e uma estrutura na qual a empresa operadora precisa obter vantagem econômica sobre o conjunto das apostas para que seu negócio seja sustentável.
Por isso, a aposta não deveria ser incorporada ao orçamento familiar como uma fonte de renda.
O Ministério da Saúde alerta que o uso problemático das apostas pode comprometer simultaneamente a saúde mental, a situação financeira, a rotina e os relacionamentos familiares e sociais.
Essa diferença precisa ser ensinada principalmente aos jovens, que são um dos públicos mais expostos à publicidade digital e ao marketing associado ao esporte.
O celular transformou a aposta em um comportamento permanente
No passado, apostar exigia deslocamento, compra de um bilhete ou presença em determinado estabelecimento.
Hoje, basta um celular.
As plataformas estão disponíveis 24 horas por dia e utilizam notificações, bônus, recompensas e apostas em tempo real, mecanismos que podem estimular a repetição do comportamento.
Essa facilidade muda completamente a relação do consumidor com a aposta.
O indivíduo não precisa mais esperar o próximo jogo. Pode apostar antes, durante e depois de uma partida. Pode acompanhar simultaneamente várias competições. Pode receber estímulos para voltar à plataforma.
A tecnologia, nesse caso, reduziu drasticamente o intervalo entre o impulso e a ação.
E isso é particularmente preocupante para pessoas que já apresentam dificuldade de controlar o comportamento de apostar.
O impacto sobre a saúde mental
A discussão sobre as bets não pode ficar restrita ao dinheiro.
O transtorno do jogo é reconhecido como um transtorno de comportamento aditivo. O Ministério da Saúde relaciona o jogo problemático a dificuldades de controle, prejuízos financeiros, problemas familiares e profissionais, ansiedade, depressão, culpa e isolamento social.
O ciclo pode começar de maneira aparentemente inocente:
apostar → perder → tentar recuperar → perder novamente → aumentar a aposta → recorrer ao crédito → esconder as perdas → acumular dívidas.
O grande perigo está justamente na tentativa de recuperar o dinheiro perdido.
Depois de perder R$ 500, por exemplo, o apostador pode acreditar que uma nova aposta de R$ 500 ou R$ 1.000 permitirá recuperar o prejuízo.
Mas, ao transformar a recuperação da perda em objetivo, ele aumenta sua exposição ao risco.
A perda deixa de ser um evento isolado e passa a alimentar novas apostas.
Quando as bets entram dentro de casa
O problema financeiro de um apostador raramente fica restrito ao próprio apostador.
Quando a renda familiar é comprometida, toda a família sofre.
O dinheiro destinado ao supermercado pode ser utilizado para apostar. A parcela do financiamento pode atrasar. O cartão de crédito pode ser utilizado para cobrir perdas. Empréstimos podem ser contratados para pagar dívidas anteriores.
E, muitas vezes, o problema é escondido.
O Ministério da Fazenda aponta como sinais de alerta comportamentos como mentir ou esconder apostas, comprometer o orçamento, prejudicar relações pessoais e profissionais e recorrer aos jogos para enfrentar situações de estresse ou frustração.
A consequência é uma deterioração que ultrapassa o aspecto financeiro.
Surge a desconfiança entre marido e mulher, conflitos entre pais e filhos, discussões sobre dinheiro e, em situações mais graves, ruptura de relacionamentos.
Portanto, a bet não deve ser analisada apenas como uma decisão individual do apostador. Ela pode produzir efeitos sobre todo o núcleo familiar.
O orçamento doméstico é a primeira vítima
Sempre defendi que o orçamento doméstico deve funcionar como uma ferramenta de proteção da família.
A renda deve primeiro atender às despesas essenciais, depois permitir a formação de uma reserva financeira e, posteriormente, financiar objetivos de médio e longo prazo.
As apostas invertem essa lógica.
O dinheiro que deveria construir patrimônio passa a financiar uma possibilidade de ganho.
Para uma família com renda de R$ 5 mil mensais, perder R$ 500 representa 10% de toda a renda do mês.
Para uma família com renda de R$ 2 mil, perder os mesmos R$ 500 significa comprometer 25% da renda.
Por isso, não basta dizer que “cada pessoa aposta o que quiser”. É necessário considerar a capacidade financeira do apostador e o impacto sobre os dependentes.
O problema das apostas entre famílias mais vulneráveis
O Banco Central já identificou a presença relevante das apostas entre pessoas de menor renda. Em estudo sobre o mercado de apostas online, o BC estimou que beneficiários do Bolsa Família enviaram cerca de R$ 3 bilhões às empresas de apostas por Pix, com mediana de R$ 100 gastos por pessoa no período analisado.
O dado é especialmente preocupante porque revela que a aposta pode atingir justamente quem possui menor capacidade de absorver perdas.
Para uma família de renda elevada, uma perda eventual pode representar apenas uma redução do consumo discricionário.
Para uma família de baixa renda, a mesma perda pode significar menos alimentos, atraso de uma conta ou aumento do endividamento.
É nesse ponto que as bets deixam de ser apenas uma questão de liberdade individual e passam a representar uma questão de proteção econômica e social.
A regulamentação é necessária, mas não suficiente
O Brasil avançou na regulamentação das apostas de quota fixa. O Ministério da Fazenda estabeleceu regras para operadores, publicidade, jogo responsável e proteção do consumidor, e novas medidas foram adotadas em 2026.
Isso é importante.
Mas regulamentar não significa eliminar os danos.
É preciso fiscalizar, impedir a atuação de plataformas ilegais, controlar práticas de publicidade, proteger menores e pessoas vulneráveis, ampliar mecanismos de autoexclusão e facilitar o atendimento de quem desenvolveu comportamento problemático.
Também é necessário que a publicidade seja muito mais responsável.
Não podemos permitir que a bet seja apresentada como sinônimo de sucesso financeiro, ascensão social ou solução para problemas econômicos.
A sociedade precisa mudar a forma de enxergar as bets
O Brasil já aprendeu, em outras áreas, que determinados produtos podem ser legais e, simultaneamente, exigir políticas rigorosas de proteção ao consumidor.
A questão não é simplesmente proibir ou liberar.
A questão é reconhecer que existe uma assimetria entre a plataforma profissionalizada, que dispõe de tecnologia, estatística, marketing e mecanismos sofisticados de retenção de usuários, e o consumidor que aposta pelo celular acreditando que pode “dar uma virada” em sua situação financeira.
Essa assimetria exige responsabilidade.
Também exige educação financeira.
Precisamos ensinar desde cedo que aposta não é investimento, perda não deve ser perseguida com novas apostas e renda familiar não pode ser utilizada para tentar recuperar dinheiro perdido.
Uma questão econômica, mas também humana
Os números são enormes, mas não podemos permitir que eles escondam as pessoas.
Por trás dos bilhões movimentados pelas bets existem famílias.
Existem pais que deixam de pagar uma conta.
Existem mães que descobrem dívidas escondidas.
Existem jovens que começam apostando pequenas quantias e passam a comprometer parcela crescente da renda.
Existem trabalhadores que utilizam o salário antes mesmo de receber.
E existem pessoas que sofrem emocionalmente por não conseguir interromper um comportamento que inicialmente parecia apenas uma diversão.
Por isso, a discussão sobre as bets precisa sair do campo exclusivamente esportivo e entrar definitivamente na agenda econômica, social e de saúde pública do país.
Conclusão
As apostas online não são um fenômeno passageiro. Elas já fazem parte da economia brasileira e movimentam valores bilionários.
Mas exatamente por terem adquirido essa dimensão, não podem ser tratadas como uma atividade econômica qualquer.
O país precisa encontrar o equilíbrio entre a liberdade individual, a atividade empresarial e a proteção da sociedade.
A prioridade deve ser preservar o orçamento das famílias, impedir que pessoas vulneráveis sejam transformadas em fonte permanente de receita e oferecer tratamento para aqueles que desenvolveram dependência.
A regulamentação das bets foi um primeiro passo. O próximo precisa ser uma política efetiva de prevenção e redução de danos.
Porque, quando a aposta compromete o dinheiro destinado à alimentação, à educação, à moradia e à formação de uma reserva financeira, ela deixa de ser entretenimento.
Quando provoca endividamento, conflitos familiares e sofrimento psicológico, deixa de ser apenas uma escolha individual.
E quando retira dezenas de bilhões de reais do orçamento das famílias, passa a ser também um problema econômico nacional.
O Brasil precisa discutir as bets não apenas pelo quanto elas movimentam, mas principalmente pelo quanto podem estar custando às famílias brasileiras.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica






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