Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
O Banco Central divulgou nesta terça-feira, 29 de setembro, as Estatísticas Monetárias e de Crédito referentes a agosto de 2026, e os números revelam um cenário que merece atenção: o crédito continua crescendo, mas a inadimplência atingiu o maior nível da série histórica, enquanto as taxas de juros permanecem elevadas, dificultando a recuperação financeira de famílias e empresas.
O saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) alcançou R$ 7,4 trilhões em agosto, com crescimento de 0,5% no mês e de 9,2% em 12 meses. O resultado demonstra que o sistema financeiro continua ampliando a oferta de recursos, embora esse crescimento ocorra em um ambiente de elevado custo financeiro.
O problema é que o crescimento do crédito não significa, necessariamente, melhora das condições financeiras dos tomadores. Ao contrário, os dados mostram que uma parcela crescente de famílias e empresas está encontrando dificuldades para honrar seus compromissos.
Inadimplência chega a 5% e bate recorde
O dado mais preocupante do relatório é a inadimplência da carteira total de crédito do SFN, que alcançou 5,0% em agosto, uma elevação de 0,1 ponto percentual no mês e de 0,9 ponto percentual em 12 meses. Trata-se do maior nível da série histórica do Banco Central, iniciada em 2011.
Entre as pessoas físicas, a situação é ainda mais delicada. A inadimplência chegou a 6,0%, com alta de 0,2 ponto percentual no mês e de 1,1 ponto percentual em 12 meses. Entre as empresas, o indicador permaneceu em 3,3%.
O resultado confirma que o consumidor continua sendo o segmento mais pressionado pelo custo do crédito e pelo comprometimento do orçamento familiar.
No crédito com recursos livres, em que as taxas são determinadas pelas condições de mercado, a inadimplência chegou a 6,6%, sendo 8,0% entre as pessoas físicas e 4,3% entre as empresas.
Esse quadro ajuda a explicar por que a redução do endividamento das famílias continua sendo um dos principais desafios da economia brasileira.
Famílias comprometem quase metade da renda anual com dívidas
Outro dado preocupante é o endividamento das famílias. Segundo o Banco Central, o indicador alcançou 49,9% da renda acumulada em 12 meses, praticamente repetindo o recorde observado anteriormente. Sem considerar o financiamento imobiliário, o endividamento ficou em 30,8%.
O comprometimento de renda também permanece extremamente elevado: 28,7% da renda das famílias está comprometida com o serviço das dívidas, mantendo-se no patamar recorde.
Isso significa que quase três de cada dez reais da renda das famílias estão destinados ao pagamento de empréstimos e financiamentos.
Na prática, quanto maior o comprometimento da renda, menor é a capacidade das famílias de consumir, poupar e enfrentar despesas inesperadas. O resultado acaba tendo reflexos sobre o próprio crescimento econômico.
Juros continuam sendo um dos principais obstáculos
A taxa média de juros das novas concessões de crédito chegou a 32,3% ao ano em agosto, alta de 0,2 ponto percentual no mês e de 0,4 ponto percentual em 12 meses. O spread bancário também aumentou, atingindo 21,2 pontos percentuais, uma elevação de 0,3 ponto percentual no mês.
A situação é particularmente difícil para as famílias.
Nas operações com recursos livres destinadas às pessoas físicas, a taxa média chegou a 61,7% ao ano, com aumento de 1,4 ponto percentual no mês. O custo elevado de modalidades como cartão de crédito e outras linhas de maior risco continua pesando fortemente sobre o orçamento dos consumidores.
Para as empresas, por outro lado, houve uma redução da taxa média nas operações livres, que ficou em 24,2% ao ano, queda de 1 ponto percentual no mês. Ainda assim, trata-se de um custo financeiro elevado para empresas que necessitam de capital de giro, financiamento de investimentos ou recursos para reorganizar suas dívidas.
Crédito para famílias cresce, mas empresas recuam
O saldo de crédito para as famílias avançou 0,8% em agosto, alcançando aproximadamente R$ 4,7 trilhões.
Para as empresas, entretanto, houve recuo de 0,1%, com estoque próximo de R$ 2,7 trilhões.
Esse comportamento diferente merece atenção.
O aumento do crédito às famílias pode estar relacionado, em parte, à necessidade de financiamento do consumo e, sobretudo, à utilização do crédito para administrar dificuldades financeiras existentes.
Já a redução do saldo de crédito das empresas pode refletir tanto menor demanda por recursos quanto maior seletividade das instituições financeiras na concessão de novos empréstimos, especialmente diante do aumento da inadimplência e do risco de crédito.
Para uma economia que precisa investir, gerar empregos e aumentar sua produtividade, o crédito empresarial desempenha papel fundamental. Quando o custo do dinheiro permanece elevado e a concessão se torna mais restritiva, investimentos podem ser adiados, projetos deixam de sair do papel e a expansão dos negócios fica comprometida.
Concessões aumentam, mas qualidade do crédito preocupa
As concessões de crédito cresceram 1,7% em agosto, com avanço de 3,2% para empresas e de 0,7% para pessoas físicas.
À primeira vista, o crescimento das concessões poderia ser interpretado como sinal positivo. Entretanto, é necessário observar não apenas quanto crédito está sendo concedido, mas também qual é o custo desse crédito, quem está tomando os recursos e qual é a capacidade de pagamento dos tomadores.
Crédito caro e acompanhado de aumento da inadimplência pode criar um círculo vicioso: o consumidor contrata crédito para pagar compromissos anteriores, o custo financeiro aumenta, o orçamento fica ainda mais comprometido e cresce a necessidade de novas operações.
Para as empresas, o mecanismo pode ser semelhante quando empréstimos de capital de giro passam a ser utilizados não para financiar expansão ou investimentos, mas para cobrir despesas correntes e rolar dívidas.
O que precisa ser feito
Os números divulgados pelo Banco Central reforçam a necessidade de uma estratégia abrangente para enfrentar o problema do crédito caro e da inadimplência.
Em primeiro lugar, é fundamental que a redução da taxa básica de juros, quando houver espaço para isso dentro das condições de inflação e expectativas, seja transmitida de forma efetiva para as taxas cobradas dos consumidores e empresas.
Também é necessário estimular a renegociação de dívidas, com condições que efetivamente permitam ao devedor voltar à adimplência. Simplesmente alongar prazos, sem reduzir adequadamente o custo financeiro, pode apenas postergar o problema.
Outra medida importante é ampliar a concorrência no sistema financeiro. Maior competição entre bancos, fintechs e demais instituições pode contribuir para reduzir spreads, melhorar as condições de financiamento e ampliar as alternativas disponíveis aos consumidores e empresas.
É igualmente importante fortalecer a educação financeira e a avaliação da capacidade de pagamento antes da contratação de novas operações. O crédito deve ser instrumento de inclusão e crescimento, e não mecanismo de perpetuação do endividamento.
Para as empresas, especialmente micro, pequenas e médias, é necessário ampliar as alternativas de financiamento de capital de giro e investimento, com condições compatíveis com sua capacidade financeira.
Crédito precisa voltar a cumprir sua função econômica
O relatório do Banco Central deixa uma mensagem clara: o Brasil possui um volume expressivo de crédito, mas enfrenta um problema importante de custo e qualidade desse crédito.
O saldo de R$ 7,4 trilhões demonstra a dimensão do sistema financeiro brasileiro. Entretanto, o recorde de 5% de inadimplência mostra que uma parcela relevante desse crédito está encontrando dificuldades de pagamento.
Para as famílias, a combinação de endividamento próximo de 50% da renda anual, comprometimento de renda de 28,7%, juros elevados e inadimplência de 6% reduz a capacidade de consumo e aumenta a vulnerabilidade financeira.
Para as empresas, juros elevados, seletividade na concessão e dificuldades de pagamento podem limitar investimentos, capital de giro, geração de empregos e crescimento.
O desafio, portanto, não é simplesmente aumentar o volume de crédito. É fazer com que o crédito seja mais barato, sustentável e adequado à capacidade de pagamento de quem toma os recursos.
Somente dessa forma o sistema financeiro poderá cumprir plenamente sua função de financiar o consumo, os investimentos, a produção e o crescimento econômico, sem transformar o endividamento em um obstáculo permanente para famílias e empresas.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica






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