Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
O Banco Central divulgou nesta sexta-feira (28) as Estatísticas Monetárias e de Crédito referentes a julho de 2026, e os números trazem uma mensagem que merece atenção: o crédito continua crescendo, mas a capacidade de pagamento dos tomadores de recursos mostra sinais cada vez mais preocupantes.
O estoque total de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) alcançou R$ 7,4 trilhões em julho, crescimento de 0,3% no mês e de 9,5% em 12 meses. O problema é que, por trás desse crescimento, aparece uma deterioração importante da qualidade das carteiras: a inadimplência chegou a 4,9%, com alta de 0,3 ponto percentual no mês e de 0,9 ponto em 12 meses.
Mais preocupante ainda é que esse percentual representa o maior nível da série histórica iniciada em 2011. Entre as pessoas físicas, a inadimplência chegou a aproximadamente 5,8%, também recorde, enquanto entre as empresas ficou em 3,3%.
Estamos, portanto, diante de um quadro em que o crédito ainda se expande, mas uma parcela crescente de consumidores e empresas encontra dificuldades para honrar seus compromissos.
Crédito para as famílias cresce, mas com custo elevado
O crédito destinado às pessoas físicas atingiu R$ 4,6 trilhões, crescimento de 0,8% em julho e de 10,8% em 12 meses.
Já o crédito destinado às empresas apresentou comportamento bastante diferente: caiu 0,7% no mês, para aproximadamente R$ 2,7 trilhões, embora ainda registre crescimento de 7,4% em 12 meses.
Esse comportamento mostra que as famílias continuam recorrendo ao sistema financeiro, seja para consumo, aquisição de bens, reorganização financeira ou simplesmente para cobrir despesas correntes.
Mas há uma questão fundamental: crescimento do crédito não significa necessariamente melhora da situação financeira das famílias.
Quando uma família precisa aumentar seu endividamento para manter o padrão de consumo ou pagar compromissos anteriores, o crescimento do crédito pode estar refletindo justamente uma situação financeira mais apertada.
Esse é um dos principais sinais de alerta dos números divulgados pelo Banco Central.
Juros começam a recuar, mas permanecem muito elevados
Uma notícia positiva do relatório foi a redução das taxas médias de juros.
A taxa média de juros das novas concessões caiu para 32,1% ao ano, redução de 1,2 ponto percentual em julho. No crédito livre, a taxa média recuou para 47,7% ao ano, queda de 2 pontos percentuais no mês.
Entre as pessoas físicas, a taxa média do crédito livre caiu 3,9 pontos percentuais, para 60% ao ano.
É uma melhora importante em relação ao mês anterior, mas é preciso colocar esse número em perspectiva: 60% ao ano continua sendo uma taxa extremamente elevada para o consumidor brasileiro.
Além disso, a taxa média esconde diferenças enormes entre as modalidades.
O caso mais emblemático é o cartão de crédito rotativo. Em julho, a taxa caiu de 442,4% para 436,1% ao ano. Apesar da redução, continua sendo uma das modalidades de crédito mais caras disponíveis ao consumidor.
E existe uma contradição preocupante: mesmo com esse custo extraordinariamente elevado, as concessões do rotativo para pessoas físicas aumentaram em julho, chegando a aproximadamente R$ 40 bilhões.
Isso demonstra que, para uma parcela dos consumidores, o cartão deixou de ser apenas um instrumento de pagamento e passou a funcionar como uma fonte recorrente de financiamento.
A inadimplência é o principal sinal de alerta
O dado que mais chama atenção no relatório é, sem dúvida, a inadimplência.
A taxa de 4,9% no sistema financeiro significa que, a cada R$ 100 de crédito da carteira considerada, aproximadamente R$ 4,90 estão em situação de inadimplência segundo o critério utilizado pelo Banco Central.
No crédito livre, a situação é ainda mais grave: a inadimplência alcançou 6,4%, sendo 7,8% entre as pessoas físicas e 4,2% entre as empresas.
A evolução das pessoas físicas merece atenção especial.
As famílias estão convivendo simultaneamente com:
- juros elevados;
- endividamento elevado;
- comprometimento crescente da renda;
- crédito caro;
- aumento da inadimplência.
Os dados mais recentes disponíveis sobre o endividamento das famílias, referentes a junho, mostram uma taxa de 49,8%, enquanto o comprometimento da renda com dívidas chegou a 28,9%, aumento de 0,4 ponto percentual no mês e de 1,7 ponto em 12 meses.
Ou seja, praticamente metade das famílias brasileiras possui algum tipo de dívida financeira, e quase 30% da renda está comprometida com o pagamento dessas obrigações.
O efeito dos juros altos aparece com defasagem
É importante compreender que a política monetária não afeta a economia de forma instantânea.
A taxa Selic foi reduzida para 14% ao ano em agosto, mas os efeitos de uma política monetária restritiva continuam sendo transmitidos para a economia durante vários meses.
O crédito contratado anteriormente continua sendo pago pelos consumidores e empresas. Empréstimos antigos permanecem com suas taxas e condições originais, e muitas famílias precisam recorrer a novas operações para reorganizar dívidas anteriores.
Por isso, mesmo diante de uma eventual trajetória de redução dos juros, a inadimplência pode continuar aumentando por algum tempo.
Esse mecanismo ajuda a explicar por que a redução da taxa média de juros observada em julho ainda não foi suficiente para interromper a deterioração da inadimplência.
Empresas também enfrentam dificuldades
O cenário não é preocupante apenas para as famílias.
O crédito para pessoas jurídicas caiu 0,7% em julho, e o saldo de crédito livre para empresas recuou 1,9% no mês, para cerca de R$ 1,6 trilhão.
Ao mesmo tempo, a taxa média do crédito livre para empresas subiu 1,1 ponto percentual, chegando a 25,4% ao ano.
Para uma empresa, principalmente uma pequena ou média empresa, financiar capital de giro a taxas dessa magnitude significa uma forte pressão sobre margens e fluxo de caixa.
O problema é particularmente grave para empresas que trabalham com margens reduzidas ou que precisam financiar estoques, contas a receber e investimentos.
Quando o custo financeiro cresce mais rapidamente que o faturamento e a rentabilidade, a empresa começa a consumir sua geração de caixa. Em uma segunda etapa, passa a atrasar fornecedores, impostos ou bancos. Finalmente, pode entrar em recuperação judicial ou até mesmo encerrar suas atividades.
Portanto, o aumento da inadimplência empresarial também deve ser acompanhado com atenção.
O crédito ampliado mostra o tamanho real do endividamento da economia
Outro indicador importante do relatório é o crédito ampliado ao setor não financeiro.
Esse conceito é mais abrangente que o crédito bancário tradicional, pois inclui, além dos empréstimos do sistema financeiro, títulos de dívida, títulos públicos e empréstimos externos.
Em julho, o crédito ampliado alcançou R$ 21,9 trilhões, equivalente a 164,9% do PIB, com crescimento de 11,9% em 12 meses.
É um número que mostra o tamanho da estrutura de financiamento da economia brasileira.
O crédito é fundamental para o crescimento econômico. Empresas precisam de financiamento para investir, produzir e contratar; famílias precisam de crédito para adquirir imóveis, veículos e bens de consumo.
Portanto, o problema não está no crédito em si.
O problema está no crédito excessivamente caro e no endividamento que ultrapassa a capacidade de pagamento.
O que o Banco Central precisa observar daqui para frente
Os números de julho reforçam a importância de acompanhar não apenas a inflação, mas também os efeitos da política monetária sobre o crédito e a saúde financeira dos agentes econômicos.
A autoridade monetária precisa encontrar um equilíbrio delicado.
De um lado, juros ainda elevados podem ser necessários para consolidar a desinflação e manter as expectativas sob controle.
De outro, juros excessivamente altos durante muito tempo provocam efeitos colaterais importantes:
reduzem o consumo, desestimulam investimentos, encarecem o capital de giro, pressionam as empresas, aumentam o comprometimento da renda das famílias e podem elevar a inadimplência.
O desafio é fazer com que a queda da inflação permita uma redução sustentável dos juros, sem comprometer a estabilidade de preços.
A economia precisa de crédito saudável, não apenas de crédito abundante
O relatório de julho mostra que o Brasil não tem necessariamente um problema de falta de crédito. O estoque já alcança R$ 7,4 trilhões no sistema financeiro.
O problema é outro: o custo e a qualidade desse crédito.
Uma economia saudável precisa de crédito com taxas compatíveis com a capacidade de geração de renda de famílias e empresas.
Quando o consumidor toma crédito caro para pagar uma dívida anterior, cria-se um ciclo perigoso de endividamento.
Quando uma empresa toma recursos caros apenas para financiar capital de giro e pagar despesas correntes, também se cria uma situação insustentável.
É preciso, portanto, olhar para os números do Banco Central para além do simples crescimento do estoque de crédito.
Conclusão
As Estatísticas Monetárias e de Crédito de julho trazem uma combinação que merece atenção: crédito crescendo 9,5% em 12 meses, juros médios começando a recuar, mas inadimplência atingindo 4,9%, maior nível da série histórica.
O quadro é ainda mais preocupante entre as famílias, cuja inadimplência no crédito livre alcançou 7,8%, enquanto o comprometimento da renda chegou a 28,9%.
A redução dos juros é uma boa notícia e deve ser aprofundada à medida que as condições econômicas permitirem. Mas não podemos esperar que uma eventual queda da Selic resolva automaticamente o problema do endividamento.
Será necessário combinar juros menores, competição bancária, redução dos spreads, educação financeira, renegociação efetiva de dívidas e aumento da renda e da produtividade da economia.
O Brasil precisa voltar a crescer de forma sustentável. E para isso precisa de crédito.
Mas não de qualquer crédito.
Precisamos de crédito que financie o crescimento, e não de crédito que apenas prolongue o endividamento.
Esse talvez seja o principal recado das estatísticas de julho do Banco Central.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica






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