Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
Para o Portal Vida Econômica
O Sistema de Consórcios vem demonstrando, ano após ano, sua importância crescente na economia brasileira. Os dados mais recentes divulgados pelo Banco Central do Brasil confirmam que o segmento mantém uma trajetória consistente de expansão e vem se consolidando como uma importante alternativa para a aquisição planejada de bens e serviços.
Em um ambiente de crédito tradicional ainda marcado por taxas de juros elevadas, o consórcio ganha relevância justamente por oferecer ao consumidor e às empresas uma forma diferente de planejamento financeiro, baseada na formação coletiva de recursos e na programação da aquisição de um bem ou serviço.
Os números mais recentes são bastante expressivos. Segundo o Banco Central, em 2025 os recursos coletados pelo Sistema de Consórcios cresceram 17,3% em relação ao ano anterior. O volume de recursos a coletar aumentou 31,2%, enquanto a carteira do segmento apresentou expansão de 19,5%. Também houve crescimento de 16,2% no total de cotas comercializadas e de 12,9% no estoque de cotas ativas. O avanço ocorreu de maneira disseminada entre os diferentes segmentos, com destaque para os consórcios de imóveis.
Crescimento consistente
O desempenho de 2025 não representa um movimento isolado. Ele dá continuidade a uma trajetória de crescimento que já vinha sendo observada nos anos anteriores.
Em 2024, por exemplo, os recursos coletados alcançaram R$ 121,8 bilhões, crescimento de 20,6% em relação ao ano anterior, enquanto a carteira chegou a R$ 125,7 bilhões. O número de cotas ativas atingiu aproximadamente 11,35 milhões, com 1,68 milhão de cotas contempladas durante aquele ano.
Isso demonstra que o consórcio deixou de ocupar uma posição meramente complementar no mercado de aquisição de bens. Ele passou a representar uma alternativa efetiva de planejamento financeiro para milhões de brasileiros.
O próprio Banco Central destaca que o segmento se consolidou como importante modalidade de financiamento para aquisição de bens e também como instrumento de inclusão financeira.
Imóveis ganham cada vez mais espaço
Um dos aspectos mais positivos da evolução recente é o desempenho dos consórcios imobiliários.
Em 2024, as cotas ativas de imóveis chegaram a 2,16 milhões, crescimento de 24,9% em apenas um ano e de 116,8% em cinco anos. Também foram contempladas 121,9 mil cotas imobiliárias no ano, alta de 17,5%.
Esse movimento merece atenção porque demonstra que o consórcio vem sendo utilizado não apenas para a compra da casa própria, mas também como instrumento de planejamento patrimonial e aquisição de imóveis por investidores e empresas.
Com prazos mais longos e possibilidade de utilização do crédito para diferentes finalidades previstas nas regras do sistema, o consórcio imobiliário pode se tornar uma importante ferramenta de formação patrimonial de médio e longo prazo.
Uma alternativa em um cenário de juros elevados
A expansão dos consórcios também precisa ser analisada à luz do cenário de crédito brasileiro.
Quando as taxas de juros dos financiamentos permanecem elevadas, o custo financeiro pode comprometer significativamente a capacidade de compra das famílias e das empresas.
O consórcio apresenta uma lógica diferente. Não há cobrança de juros sobre o crédito como ocorre em um financiamento convencional, embora existam taxa de administração, fundo de reserva, seguros e outros custos eventualmente previstos no contrato.
Por isso, é importante deixar claro que consórcio não significa aquisição sem custo. A comparação deve considerar o custo total da operação, o prazo, o valor das parcelas, a correção do crédito e as condições de contemplação.
Ainda assim, para quem não tem necessidade imediata do bem e consegue se planejar, o consórcio pode representar uma alternativa competitiva diante do elevado custo do crédito tradicional.
Mais de 12% de crescimento nas cotas ativas
Outro dado relevante divulgado pelo Banco Central é o crescimento de 12,9% do estoque de cotas ativas em 2025.
Esse indicador demonstra que o crescimento do sistema não está restrito à venda de novas cotas. Existe também uma ampliação da base de participantes que permanece utilizando o consórcio como instrumento de planejamento.
O crescimento de 16,2% das cotas comercializadas reforça essa percepção e mostra que existe demanda por uma modalidade que permita ao consumidor programar a aquisição de um bem em vez de necessariamente assumir imediatamente uma dívida bancária de longo prazo.
Solidez e supervisão fortalecem o sistema
Outro ponto positivo é o papel desempenhado pelo Banco Central na supervisão das administradoras.
No encerramento de 2024, havia 131 administradoras autorizadas, sendo 125 com grupos ativos. Durante aquele ano, cinco administradoras tiveram a autorização cancelada e duas foram liquidadas, enquanto duas novas ingressaram no mercado.
À primeira vista, a saída de empresas pode parecer negativa. Entretanto, do ponto de vista da estabilidade do sistema, a atuação fiscalizadora do regulador é fundamental.
Um mercado saudável não é aquele em que nenhuma instituição deixa de operar, mas aquele em que instituições sem condições adequadas de funcionamento são identificadas e retiradas do sistema, preservando a confiança dos participantes e a segurança do segmento.
Inadimplência sob controle
Os indicadores financeiros disponíveis também mostram aspectos positivos.
No Panorama referente a 2024, a inadimplência do sistema ficou em 2,35%, com redução em relação ao ano anterior. O patrimônio líquido ajustado das administradoras alcançou R$ 20,1 bilhões, enquanto a disponibilidade total chegou a R$ 21,3 bilhões.
Esses números reforçam a percepção de que o crescimento do sistema vem acompanhado de uma estrutura financeira relevante.
É importante, porém, não confundir o crescimento do setor com ausência de desafios. O Banco Central também identificou um índice de exclusão elevado, mostrando que uma parcela relevante dos participantes acaba deixando os grupos antes de adquirir o bem desejado. Esse é um dos principais pontos que precisam ser enfrentados pelo segmento.
Transparência cada vez maior
Uma mudança importante promovida pelo Banco Central foi a ampliação da divulgação das informações do setor.
O BC passou a disponibilizar os dados agregados do Sistema de Consórcios em seu Portal de Dados Abertos, substituindo a publicação anual tradicional do Panorama do Sistema de Consórcios. A nova base contém séries históricas desde 2015 e permite análises mais detalhadas de administradoras, grupos e cotas. A periodicidade também passou a ser trimestral.
Essa mudança é extremamente positiva.
Quanto maior a transparência, maior a capacidade de consumidores, empresas, pesquisadores, jornalistas e agentes do mercado avaliarem a evolução do segmento.
A disponibilização dos dados em formato aberto também permite a criação de estudos e ferramentas capazes de acompanhar com maior precisão o comportamento do mercado.
Consórcio como instrumento de inclusão financeira
Talvez uma das características mais importantes do sistema seja sua contribuição para a inclusão financeira.
O consórcio permite que pessoas que não necessariamente desejam ou conseguem assumir um financiamento tradicional de longo prazo participem de um mecanismo de aquisição planejada.
Isso é particularmente importante em um país no qual o custo do crédito pode representar uma barreira significativa para famílias e pequenas empresas.
Ao estimular a disciplina financeira e a formação de recursos destinados a uma finalidade específica, o consórcio também pode contribuir para uma cultura maior de planejamento.
Empresas também descobrem o consórcio
O crescimento do sistema não está limitado às famílias.
Empresas podem utilizar consórcios como instrumento de planejamento para renovação de veículos, aquisição de máquinas, equipamentos, imóveis e outros ativos.
Para uma empresa, essa possibilidade pode ser especialmente interessante quando existe planejamento de investimentos para os próximos anos e não há necessidade de realizar imediatamente uma aquisição financiada.
O consórcio pode, nesse contexto, integrar o planejamento financeiro e patrimonial da empresa, desde que a decisão seja tomada considerando fluxo de caixa, prazo e custo total da operação.
Um setor com boas perspectivas
Os números do Banco Central permitem uma conclusão bastante clara: o Sistema de Consórcios atravessa um momento de expansão e amadurecimento.
O crescimento dos recursos coletados, da carteira, das cotas comercializadas e das cotas ativas em 2025 demonstra que a modalidade continua conquistando espaço. O desempenho particularmente forte do segmento imobiliário reforça a percepção de que o consórcio vem se tornando uma ferramenta importante de planejamento patrimonial.
Mais do que uma alternativa ao financiamento tradicional, o consórcio vem assumindo uma função estratégica na organização financeira de famílias e empresas.
Seu crescimento, entretanto, precisa continuar acompanhado de transparência, educação financeira, adequada avaliação dos custos, fortalecimento da supervisão e redução dos índices de exclusão.
O futuro do segmento tende a ser ainda mais promissor à medida que as administradoras avancem na digitalização, melhorem a experiência dos participantes e utilizem dados para aperfeiçoar a gestão dos grupos.
Os números mais recentes mostram que o consórcio conquistou um espaço importante no sistema financeiro brasileiro. E, diante de um mercado de crédito ainda caro e de consumidores cada vez mais preocupados com planejamento financeiro, tudo indica que essa participação deverá continuar crescendo.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica






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