Estoque de empréstimos chega a R$ 7,44 trilhões em setembro. Avanço do crédito convive com dificuldades de pagamento, custo financeiro elevado e desafios para a recuperação da economia.
Por Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica
O Banco Central do Brasil divulgou nesta quinta-feira, 29 de outubro, as Estatísticas Monetárias e de Crédito referentes a setembro de 2026. Os números mostram que o volume de crédito continua crescendo no País, mas esse movimento ocorre em um ambiente que exige atenção: juros elevados, inadimplência preocupante e dificuldades financeiras enfrentadas por uma parcela significativa das famílias e das empresas.
O saldo das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN) atingiu R$ 7,444 trilhões em setembro, registrando crescimento de 0,4% em relação a agosto e de 8,6% no acumulado de 12 meses. Embora a expansão demonstre a dimensão e a importância do sistema financeiro para a economia brasileira, é necessário avaliar não apenas o volume de recursos emprestados, mas também o custo dos financiamentos e a capacidade de pagamento dos tomadores.
O crescimento do crédito, por si só, não significa que as condições financeiras estejam melhorando. Quando os empréstimos são contratados a custos elevados e comprometem uma parcela expressiva da renda, podem contribuir para o aumento do endividamento e das dificuldades de pagamento.
Crédito às famílias e às empresas apresenta comportamentos distintos
Os dados do Banco Central mostram diferenças importantes na evolução do crédito destinado às pessoas físicas e jurídicas.
O saldo das operações com pessoas físicas cresceu 0,1% em setembro, acumulando expansão de 9,9% em 12 meses. Já o crédito às empresas avançou 1,0% no mês e 6,5% em 12 meses.
Evolução do saldo das operações de crédito
| Indicador | Setembro de 2026 | Variação em 12 meses |
| Crédito total do SFN | R$ 7,444 trilhões | +8,6% |
| Crédito às pessoas físicas | R$ 4,684 trilhões | +9,9% |
| Crédito às empresas | R$ 2,759 trilhões | +6,5% |
| Crédito livre total | Alta de 0,8% no mês | — |
| Crédito direcionado total | Estabilidade no mês | — |
Fonte: Banco Central do Brasil. Variações nominais do saldo das operações de crédito.
O desempenho revela que o crédito às famílias continua crescendo em ritmo superior ao destinado às empresas. Esse movimento precisa ser acompanhado com atenção, especialmente diante do custo dos empréstimos e do comprometimento da renda dos consumidores com o pagamento de dívidas.
No caso das empresas, a expansão mensal de 1,0% representa um resultado positivo para o financiamento das atividades produtivas. Entretanto, o crescimento de 6,5% em 12 meses, inferior ao observado no segmento das famílias, mostra que a evolução do crédito corporativo permanece mais moderada.
É importante ressaltar que o aumento do saldo das operações não representa necessariamente novas contratações no mesmo montante. O indicador também reflete a evolução dos contratos existentes, as amortizações e outros movimentos das carteiras de crédito.
Inadimplência continua sendo um dos principais pontos de atenção
Um dos indicadores mais importantes para avaliar a saúde do mercado de crédito é a inadimplência, pois ela demonstra a dificuldade dos tomadores em honrar os compromissos assumidos.
Em setembro, a inadimplência nas operações com recursos livres atingiu 6,6%, enquanto o spread bancário nessa modalidade chegou a 35,5 pontos percentuais, segundo os dados divulgados pelo Banco Central.
Os recursos livres são aqueles cujas condições de concessão e taxas de juros são estabelecidas pelas instituições financeiras de acordo com as condições de mercado, o perfil do cliente e os riscos envolvidos.
A inadimplência elevada tem consequências para todo o sistema econômico. Para as famílias, significa maior dificuldade de reorganizar o orçamento e obter novos financiamentos em condições favoráveis. Para as empresas, pode representar restrições de acesso ao capital de giro, dificuldades para renegociar compromissos e redução da capacidade de investir.
Para os bancos, o aumento dos atrasos e dos créditos não pagos eleva os riscos das carteiras e pode exigir maiores provisões para perdas. Esse cenário, por sua vez, pode influenciar as condições de concessão de novos empréstimos.
Forma-se, assim, um círculo que precisa ser interrompido: juros elevados aumentam o custo das dívidas, dificuldades de pagamento elevam o risco de crédito e o risco pode contribuir para a manutenção de condições mais restritivas de financiamento.
O custo do crédito permanece um obstáculo
O spread bancário de 35,5 pontos percentuais nas operações com recursos livres merece atenção. Ele representa a diferença entre a taxa cobrada nas operações de crédito e o custo de captação dos recursos pelas instituições financeiras, observadas as características e a metodologia de cálculo do indicador.
É importante não confundir spread com lucro líquido dos bancos. Parte dessa diferença corresponde à cobertura de inadimplência, despesas administrativas, tributos e outros custos, além da remuneração das instituições.
Ainda assim, o elevado diferencial entre o custo de captação e as taxas finais cobradas dos clientes evidencia o desafio de tornar o crédito mais acessível à economia brasileira.
Para reduzir esse custo de maneira sustentável, é necessário atuar sobre diferentes fatores: melhorar a recuperação de garantias, ampliar a concorrência, aperfeiçoar os mecanismos de análise de risco, reduzir a inadimplência e estimular a oferta de informações de qualidade sobre o histórico financeiro dos tomadores.
Também é fundamental ampliar a transparência na apresentação do Custo Efetivo Total (CET), permitindo que consumidores e empresas comparem as propostas e identifiquem o custo real de cada operação.
A simples determinação de taxas menores, sem considerar o risco, a estrutura de custos e as condições de oferta, não resolve o problema de forma duradoura. O objetivo deve ser criar condições para que os juros caiam sem comprometer a sustentabilidade da concessão de crédito.
Crédito livre cresce mais do que o direcionado
Outro destaque das estatísticas de setembro é a diferença entre as modalidades de crédito.
O saldo do crédito com recursos livres aumentou 0,8% no mês, enquanto o crédito direcionado permaneceu estável.
O crédito direcionado compreende operações cujas condições de financiamento seguem regras ou finalidades específicas, incluindo linhas associadas a recursos do BNDES e da poupança, entre outras fontes.
Essa modalidade tem papel importante no financiamento de setores e atividades que necessitam de prazos mais longos ou condições específicas, como habitação, infraestrutura e determinados investimentos produtivos.
A estabilidade mensal do saldo direcionado mostra a importância de acompanhar a evolução das fontes de financiamento e a disponibilidade de recursos para projetos de longo prazo.
No crédito livre, por sua vez, a expansão de 0,8% demonstra maior crescimento do saldo no período, mas precisa ser analisada em conjunto com as taxas de juros e a inadimplência.
O desafio consiste em assegurar que a expansão do crédito seja acompanhada por condições adequadas de financiamento e por uma avaliação responsável da capacidade de pagamento.
Habitação e veículos mantêm expansão
Entre as modalidades específicas, o crédito direcionado para habitação destinado às pessoas físicas cresceu 0,8% em setembro, alcançando R$ 1,443 trilhão. Em 12 meses, a expansão foi de 13,7%.
O resultado demonstra a relevância do financiamento imobiliário para as famílias e para a atividade econômica. O setor habitacional movimenta uma extensa cadeia produtiva, que inclui construção civil, materiais de construção, serviços e geração de empregos.
O crédito livre para aquisição de veículos por pessoas físicas também apresentou crescimento. O saldo chegou a R$ 417,4 bilhões em setembro, com alta mensal de 0,4% e expansão de 9,9% em 12 meses.
Esses indicadores mostram que existem segmentos com crescimento expressivo, embora o custo das operações e a renda disponível dos consumidores continuem sendo fatores determinantes para a sustentação da demanda.
Concessões de crédito: crescimento mensal exige análise cuidadosa
As concessões de crédito livre, sem ajuste sazonal, alcançaram R$ 674,1 bilhões em setembro, com alta de 3,4% em relação a agosto e de 11,2% em 12 meses.
As concessões destinadas às pessoas físicas totalizaram R$ 348,7 bilhões, crescimento mensal de 0,2% e expansão de 10,1% em 12 meses.
Para as empresas, as concessões atingiram R$ 325,3 bilhões, com avanço de 7,1% no mês e de 12,5% em 12 meses.
Entretanto, quando se considera a série com ajuste sazonal, que permite uma comparação mais adequada entre períodos sujeitos a efeitos recorrentes do calendário, as concessões totais recuaram 1,3% em setembro.
Nesse mesmo critério, as concessões para pessoas físicas cresceram 0,6%, enquanto as destinadas às empresas diminuíram 3,4%.
A diferença entre os resultados evidencia a importância de avaliar os indicadores com critérios comparáveis. O crescimento dos valores sem ajuste sazonal não significa necessariamente aceleração generalizada da oferta de crédito.
No caso das empresas, a queda mensal das concessões com ajuste sazonal merece acompanhamento, pois a disponibilidade de financiamento influencia o capital de giro, a capacidade de produção e a realização de investimentos.
Quais medidas podem melhorar as condições do crédito?
O cenário apresentado pelo Banco Central exige ações coordenadas para melhorar as condições de financiamento e reduzir os riscos de inadimplência.
1. Redução sustentável do custo do crédito
A diminuição dos custos de financiamento depende de uma combinação de condições macroeconômicas favoráveis, concorrência, eficiência operacional, recuperação de garantias e redução das perdas decorrentes da inadimplência.
A evolução da taxa básica de juros também influencia o custo de captação das instituições financeiras, embora seus efeitos sobre as taxas finais não sejam imediatos nem uniformes entre as modalidades.
2. Renegociação responsável das dívidas
Famílias e empresas que enfrentam dificuldades devem ter acesso a mecanismos de renegociação capazes de adequar parcelas, prazos e encargos à capacidade real de pagamento.
A renegociação precisa evitar que o devedor simplesmente substitua uma dívida por outra mais cara, prolongando o problema financeiro.
3. Ampliação das alternativas de financiamento empresarial
É necessário fortalecer as linhas de crédito destinadas ao capital de giro e ao investimento produtivo, especialmente para micro, pequenas e médias empresas.
Também é importante desenvolver instrumentos que permitam diversificar as fontes de financiamento, reduzindo a dependência exclusiva do crédito bancário tradicional.
4. Educação financeira e planejamento orçamentário
As famílias precisam ter acesso a informações claras sobre juros, parcelas, prazos e Custo Efetivo Total. A contratação de empréstimos deve considerar não apenas o valor da prestação, mas o custo total da dívida e seu impacto sobre o orçamento.
5. Melhoria das informações e das garantias
O aperfeiçoamento dos cadastros, dos mecanismos de compartilhamento de informações e dos instrumentos de recuperação de garantias pode ajudar a reduzir assimetrias de informação e riscos, contribuindo para uma oferta de crédito mais eficiente.
6. Preservação da estabilidade econômica
A manutenção da inflação sob controle, a previsibilidade das políticas econômicas e a recuperação sustentável da atividade produtiva são condições importantes para melhorar o ambiente de crédito.
A redução dos juros precisa ser compatível com a trajetória da inflação e com as condições macroeconômicas, de forma a preservar a estabilidade e criar espaço para uma expansão sustentável do financiamento.
Conclusão: o desafio não é apenas emprestar mais, mas emprestar melhor
As Estatísticas Monetárias e de Crédito de setembro de 2026 mostram que o sistema financeiro brasileiro continua ampliando seu volume de operações. O estoque de R$ 7,444 trilhões e o crescimento de 8,6% em 12 meses confirmam a dimensão desse mercado.
Entretanto, o avanço do crédito convive com dificuldades importantes. A inadimplência de 6,6% nas operações com recursos livres e o spread de 35,5 pontos percentuais evidenciam que o custo e o risco continuam sendo obstáculos para famílias e empresas.
O País precisa avançar na construção de um mercado de crédito mais competitivo, transparente e acessível, sem comprometer a solidez do sistema financeiro.
Para as famílias, o objetivo deve ser ampliar o acesso ao financiamento sem agravar o comprometimento da renda e o endividamento. Para as empresas, é necessário garantir condições que favoreçam o capital de giro, os investimentos, a produção e a geração de empregos.
O crédito é um instrumento essencial para o funcionamento da economia. Quando oferecido em condições adequadas, estimula o consumo, viabiliza investimentos e contribui para o crescimento. Quando excessivamente caro ou incompatível com a capacidade de pagamento, pode se transformar em um fator de restrição econômica.
O desafio brasileiro, portanto, não é simplesmente ampliar o volume de empréstimos, mas assegurar que o crédito cumpra sua função de financiar o desenvolvimento, com custos sustentáveis, responsabilidade na concessão e capacidade efetiva de pagamento.
Miguel José Ribeiro de Oliveira
Portal Vida Econômica






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